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Jesus e Lúcifer

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    Sofhia
  • 5 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Uma Análise Esotérica da Luz e da Sombra na Teosofia do Século XIX com Base na Revista "LUCIFER"

Jesus e Lúcifer
Jesus e Lúcifer

Jesus e Lúcifer: Uma Análise Esotérica da Luz e da Sombra na Teosofia do Século XIX com Base na Revista "LUCIFER"

Revista Lucifer - Helena P. Blavatsky E Mabel Collins

O final do século XIX representou um período de intensa efervescência intelectual e espiritual, marcado por uma crescente crítica à religião dogmática e por um florescimento de filosofias esotéricas que buscavam resgatar uma sabedoria primordial. Nesse cenário, a revista LUCIFER, editada por H. P. Blavatsky, emerge como uma fonte primária fundamental para compreender a reinterpretação teosófica de figuras centrais do pensamento religioso ocidental. A publicação, desde seu título provocador, posicionou-se como um farol contra a ortodoxia, propondo uma reavaliação radical de símbolos tidos como imutáveis.

O objetivo deste artigo acadêmico é analisar como a publicação LUCIFER desconstrói e reconstrói as figuras de Lúcifer e Jesus, transformando-os de adversários dogmáticos em símbolos paralelos da busca pela verdade esotérica. Utilizando uma metodologia de análise textual rigorosa, este artigo irá dissecar a retórica, a etimologia e o simbolismo empregados pela revista para subverter as narrativas teológicas dominantes. Todas as análises e citações serão estritamente fundamentadas no texto-fonte fornecido, com as devidas referências de página.

Em sua essência, este trabalho examinará a tese central da revista: a de que ambos os símbolos foram vítimas de uma mesma distorção exotérica. A análise que se segue revelará como o texto propõe uma restauração de seus significados originais, corrompidos pela "calúnia teológica" (p. 13).

Jesus e Lúcifer

A Reivindicação do Nome "Lúcifer": Do Demônio ao Portador da Luz

A escolha estratégica de nomear a revista "LUCIFER" representa, em si, um ato de insurgência intelectual e uma declaração de guerra contra a ortodoxia religiosa. Ao resgatar um nome deliberadamente demonizado, a publicação não apenas desafia um preconceito profundamente enraizado, mas também estabelece sua missão principal: lançar "um raio de verdade sobre tudo o que está oculto pela escuridão do preconceito, por equívocos sociais ou religiosos" (p. 10). Este ato corajoso serve como um manifesto contra a aceitação passiva de dogmas e a recusa em questionar a opinião pública sancionada.

Para fundamentar essa reabilitação, a revista dedica-se a uma análise detalhada da etimologia e das raízes mitológicas do nome, desvinculando-o de sua posterior associação com o mal. A reabilitação de Lúcifer começa com seu fundamento etimológico, pois o nome deriva diretamente do latim lux, lucis, significando literalmente "portador da luz" (p. 10). Antes de sua demonização, Lúcifer era a identidade latina para Eósforo ou Fósforo, a personificação de Vênus, a "Estrela Brilhante e Matutina" (Estrela da Manhã) (p. 13, 21-22). Longe de ser uma figura sinistra, ele é descrito poeticamente como o "pálido e puro arauto do amanhecer" (p. 11), um símbolo da chegada da luz após a escuridão da noite.

A demonização medieval de Lúcifer é, portanto, desconstruída como um produto do "obscurecimento mental" e das "fantasias impuras" de "monges avessos à luz" (p. 10). O texto afirma categoricamente que o opróbrio ligado ao nome é de data "muito recente" (p. 13), uma invenção teológica para sustentar uma cosmologia dualista de bem contra o mal absoluto. A revista atribui um peso significativo a um agente histórico específico nessa transformação, afirmando que "foi Milton quem o associou ao diabo" (p. 11), fornecendo assim uma âncora literária concreta para a popularização da calúnia. Ao adotar este nome, a revista declara seu propósito de combater o preconceito de que Lúcifer significa "o diabo, nada mais, nada menos" (p. 11), e de restaurar seu verdadeiro papel como um emblema da iluminação e do conhecimento.

Este processo de resgate simbólico, no entanto, não se limita à figura de Lúcifer. A mesma metodologia crítica é aplicada à figura central do cristianismo, sugerindo que o processo de distorção dogmática que obscureceu o "Portador da Luz" também afetou profundamente a compreensão do verdadeiro Cristo.

Jesus e Lúcifer

A Desconstrução do Jesus Dogmático e a Revelação do "Christos" Esotérico

Paralelamente à reabilitação de Lúcifer, a revista LUCIFER empreende uma crítica rigorosa ao cristianismo ortodoxo, argumentando pela necessidade de separar a figura histórica e pessoal de Jesus do princípio universal do "Christos". Segundo o texto, este princípio espiritual foi suprimido, mal interpretado e monopolizado pela Igreja, que perdeu as chaves para a sua verdadeira compreensão esotérica (p. 237). A publicação busca, portanto, restaurar um conhecimento que teria sido deliberadamente obscurecido.

A base dessa desconstrução reside na análise aprofundada da distinção esotérica entre dois termos gregos que foram confundidos pela teologia exotérica: Chréstos e Christos. O primeiro, Chréstos (χρηστός), define o neófito ou discípulo em provação no caminho da iniciação. Literalmente, significa um "bom sujeito", alguém que aspira à iluminação, mas que ainda não a alcançou. A revista cita como evidência uma inscrição encontrada em Delfos que menciona "Chrestos, o primeiro", um herói que morreu antes de completar sua jornada espiritual e alcançar o estado final (p. 286-290). Em contraste, Christos (χριστός), que significa "ungido", não se refere a uma pessoa, mas ao estado final de glorificação alcançado após a iniciação completa. É o momento em que o indivíduo se une ao seu espírito divino interior, o "Espírito Divino imortal no homem" (p. 173). A publicação é enfática ao afirmar que "Christos" é um estado, não uma pessoa, e, citando Gerald Massey, declara que Jesus foi um Chréstos que "nunca foi intitulado Christos durante sua vida e antes de sua última prova" (p. 290).

Para ilustrar as etapas da iniciação simbolizadas pela jornada do Chréstos, o texto recorre à mitologia grega pré-cristã, especificamente à alegoria de Ion (ou Jano). Nascido de Creusa (Krisa) em uma gruta e criado no santuário de Delfos, Ion torna-se um Chrestis (sacerdote/iniciado) e, em suas provações, quase se torna um Chrésterion ("vítima sacrificial") (p. 289-290). Essa narrativa serve como um exemplar mitológico do caminho do discípulo, reforçando as raízes antigas do conceito de um percurso espiritual marcado por testes e perigos antes da glorificação.

A análise esotérica aprofunda ainda mais as origens do conceito de Christos, traçando-o até o simbolismo funerário do Egito Antigo. A revista argumenta que a imagem do Cristo ressuscitado é uma herança direta da múmia egípcia, conhecida como Karest. O texto afirma explicitamente: "Lázaro é uma múmia egípcia!... Lázaro é o Karest, que era o Cristo egípcio" (p. 291). A múmia, preparada para a vida após a morte, representava a potencialidade da ressurreição e da transformação espiritual, tornando-se, assim, "a imagem humana mais antiga do Cristo" (p. 292). Essa conexão situa o princípio Christos em um contexto esotérico muito mais antigo e universal, desvinculando-o de sua apropriação exclusiva pelo cristianismo.

A Igreja estabelecida é diretamente acusada de ter suprimido os "mistérios do reino dos céus" (p. 236) e de ter promovido uma série de contradições nos ensinamentos atribuídos a Jesus, tornando-os incompreensíveis sem a chave esotérica (p. 132, 236). Ao monopolizar a figura de Cristo, a Igreja teria transformado um princípio universal em um ídolo sectário, perdendo a noção de que o "Christos" é um potencial espiritual acessível a toda a humanidade, não podendo ser confinado "a qualquer credo ou seita" (p. 173).

Com as figuras de Lúcifer e Cristo devidamente recontextualizadas dentro de um arcabouço esotérico, o texto prepara o terreno para a síntese final, onde as trajetórias desses dois símbolos, corrompidos pelo dogma, finalmente convergem.

A Dialética da Luz: Lúcifer e Cristo como Símbolos Corrompidos e Restaurados

A análise teosófica apresentada na revista LUCIFER culmina na revelação de um processo paralelo de corrupção e restauração simbólica aplicado tanto a Lúcifer quanto a Cristo. Na visão esotérica da publicação, ambos representam princípios de luz — arquétipos da verdade e do espírito — que foram tragicamente distorcidos pela ignorância dogmática e transformados em adversários em um drama teológico inventado.

Lúcifer, o "Portador da Luz", e Christos, o "Espírito da Verdade", foram rebaixados de seus elevados status esotéricos para servirem a uma narrativa dualista. A evidência mais contundente para essa tese, segundo o texto, vem da própria admissão da Igreja Romana. Ao analisar essa dinâmica, a revista adota um tom agudamente crítico, afirmando que "a Igreja Romana se viu forçada a encobrir a calúnia teológica com uma interpretação de dois lados — como de costume" (p. 13). A expressão "como de costume" sublinha a visão teosófica da Igreja como uma instituição habitualmente duplidosa, forçada a justificar a apropriação de um símbolo pagão por meio de uma reinterpretação forçada:

Cristo, nos dizem, é a "Estrela da Manhã", o Lúcifer divino; e Satanás, o usurpador do Verbum, o "Lúcifer infernal". (p. 13)

Esta citação é central, pois revela a apropriação e a subsequente demonização do mesmo símbolo. O título "Estrela da Manhã", um epíteto de Vênus-Lúcifer (p. 11, 21-22), é igualmente aplicado a Cristo no cânone cristão (p. 13). Essa identidade compartilhada os une, na visão teosófica, como arautos da luz, da verdade e do amanhecer espiritual, em flagrante contraste com suas representações dogmáticas como inimigos mortais. Lúcifer e Cristo, portanto, não são opostos, mas reflexos de um mesmo princípio luminoso, um divino e outro cósmico, ambos pervertidos pela "calúnia teológica" (p. 13).

A missão declarada da revista LUCIFER é, assim, resgatar ambos os símbolos dessa deturpação. O objetivo é restaurá-los como emblemas da luta espiritual humana pela sabedoria, lançando "o primeiro raio de luz e verdade sobre um preconceito ridículo" (p. 13). No esoterismo teosófico, a luz pode vir de fontes inesperadas, e a verdadeira oposição não se dá entre Cristo e Lúcifer. A batalha fundamental é travada entre o conhecimento (Gnose) e a ignorância, entre a sabedoria esotérica e o dogma obscurecedor.

Conclusão

Este artigo demonstrou como a revista LUCIFER, editada por H. P. Blavatsky, empreendeu no final do século XIX uma reinterpretação radical de figuras centrais da tradição religiosa ocidental. A publicação redefine Lúcifer, resgatando-o de sua caricatura como arquidemônio para restaurá-lo como um símbolo de iluminação, coragem intelectual e a busca pela verdade contra o preconceito dogmático. Ele se torna o "Portador da Luz" em seu sentido mais literal e filosófico.

Paralelamente, o texto desconstrói a figura de Jesus, separando o homem histórico do princípio espiritual universal. A análise esotérica distingue o caminho do Chréstos — o discípulo em provação — do estado glorificado do Christos — a união com o espírito divino interior, acessível a toda a humanidade. Jesus é apresentado não como uma divindade singular e exclusiva, mas como um poderoso exemplo desse caminho transformador, cujas raízes simbólicas se estendem até à figura do Karest egípcio.

Dentro do arcabouço teosófico apresentado, Lúcifer e Cristo emergem não como opostos, mas como vítimas paralelas da mesma deturpação exotérica. Ambos, símbolos da "Estrela da Manhã", foram corrompidos para servir a uma teologia de conflito. A missão da publicação, portanto, revela-se como uma tentativa de restaurar a "luz" a ambos, reposicionando a verdadeira batalha espiritual não entre o Céu e o Inferno, mas no campo de batalha da consciência humana, entre a sabedoria esotérica e a ignorância dogmática.

“O domínio da arte, do proscrito e do errante. Pertence àqueles que sabem que cada luz projeta uma sombra; que olharam para as profundezas das trevas em suas almas e aceitaram o que viram junto com tudo o que é bom " Elizeu A.S
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